Cultura do machismo ainda impera no Brasil

Neste último final de semana foi realizado em todo o país o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), que tem por objetivo avaliar o desempenho escolar e acadêmico ao fim do ensino médio, e selecionar ingressantes nos cursos superiores de faculdades e universidades federais.

Porém, dois pontos específicos da prova geraram polêmica: a questão da citação da filósofa francesa, Simone de Beauvoir,  e o tema da redação.

A citação de Beauvoir estava na prova de sábado (24), que dizia: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino.”

O tema da redação – “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira” – também produziu muito embate nas redes sociais. Especialistas, professores e estudantes elogiaram a escolha do tema. Pelo Correio Braziliense a antropóloga e professora da Universidade de Brasília (UNB), Debora Diniz,  afirmou que, “depois que planos nacionais ameaçaram retrocesso no tema, no começo do ano, o Ministério da Educação mostra que a escola não pode ignorar a sexualidade. E faz acertadamente o papel de levar aos cidadãos questionamentos importantes”.

Por outro lado, alguns internautas criticaram a postura do Ministério da Educação na elaboração da questão e da proposta do tema da redação, insinuando suposto feminismo dos organizadores do Enem. Reações preconceituosas ao assunto culminaram nas hashtag #enemfeminista e #feminazi”.

g1.globo.com

Apesar da importância de se debater questões de gênero e a violência contra à mulher, me espanto quando vejo pessoas, principalmente as formadoras de opinião, querendo minimizar ou transparecer que tais assuntos são irrelevantes ou que o tema é um exagero de um determinado grupo. Os deputados Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Marco Feliciano (PSC-SP) foram alguns dos exemplos que tentam fingir que isso é algo pequeno para ser debatido na sociedade.

Vivemos numa sociedade que historicamente é machista. Basta relembrar alguns fatos históricos:

  • No ano de 1827 surge a primeira lei sobre educação das mulheres, permitindo que frequentassem as escolas elementares. As instituições de ensino mais avançadas eram proibidas a elas.
  • Em 1879 as mulheres têm autorização do governo para estudar em instituições de ensino superior, mas as que seguiam este caminho eram criticadas pela sociedade.
  • O Governador do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine, no ano de 1927, consegue uma alteração da lei eleitoral dando o direito de voto às mulheres. O primeiro voto feminino no Brasil – e na América Latina – foi em 25 de novembro, no Rio Grande do Norte. Quinze mulheres votaram, mas seus votos foram anulados no ano seguinte. No entanto, foi eleita a primeira prefeita da História do Brasil: Alzira Soriano de Souza, no município de Lages – RN.
  • Getúlio Vargas, no início da Era Vargas, promulga o novo Código Eleitoral, garantindo finalmente o direito de voto às mulheres brasileiras.
  • O Estado Novo criou o Decreto 3199 que proibia às mulheres a prática dos esportes que considerava incompatíveis com as condições femininas tais como: “luta de qualquer natureza, futebol de salão, futebol de praia, polo, polo aquático, halterofilismo e beisebol”. O Decreto só foi regulamentado em 1965.
  • No final dos anos de 1970, Eunice Michilles, então representante do PSD/AM, torna-se a primeira mulher a ocupar o cargo de Senadora, por falecimento do titular da vaga. A equipe feminina de judô inscreve-se com nomes de homens no campeonato sul-americano da Argentina. Esse fato motivaria a revogação do Decreto 3.199.
  • Em 1985 surge a primeira Delegacia de Atendimento Especializado à Mulher – DEAM (SP) e muitas são implantadas em outros estados brasileiros. Ainda neste ano, a Câmara dos Deputados aprova o Projeto de Lei que criou o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.
  • No ano do nascimento da Constituição Federal, através do lobby do batom, liderado por feministas e pelas 26 deputadas federais constituintes, as mulheres obtêm importantes avanços na Constituição Federal, garantindo igualdade a direitos e obrigações entre homens e mulheres perante a lei.
  • O Congresso Nacional, em 1996, inclui o sistema de cotas na Legislação Eleitoral, obrigando os partidos a inscreverem, no mínimo, 20% de mulheres nas chapas proporcionais.
  • Dilma Rousseff, é eleita a primeira presidente mulher do Brasil.

Fatos históricos como estes nos revelam um país cuja cultura ainda é machista, mas também nos diz que a luta pelos  direitos de igualdade da mulher é árdua e longa. Não podemos deixar que comentários sexistas e preconceituosos atrapalhem a luta para uma sociedade mais justa e igualitária.

#PrimeiroAssédio

Dentro desse preconceito e do machismo instalado na cultura brasileira há um tema muito delicado a ser debatido: o assédio, que na maioria dos casos ou é escondido ou passa despercebido pelos familiares, amigos e sociedade.

Juliana De Faria, fundadora do coletivo feminista Think Olga e criadora da campanha Chega de Fiu Fiu, foi quem lançou a hashtag no Twitter com o objetivo de estimular mulheres a contarem os casos de assédio que viveram na infância, que contou com a mobilização de milhares de compartilhamentos.

primeiroassedio23A campanha surgiu após a polêmica com a candidata Valentina, de 12 anos, do programa MasterChef Júnior na TV Bandeirantes, com a divulgação de comentários com cunho sexual.

Casos e mais casos chocantes foram contados pelas mulheres nas redes sociais, e alguns relataram a omissão da família. Graças a internet o tema não fica mascarado, espera-se, portanto, uma conscientização com debates nas escolas e nas famílias; e planos de ações do Governo para conter o assédio sexual.

Quando leio notícias sobre esse assunto me pergunto, onde está escrito que uma criatura acha que tem algum direito de violar o espaço da mulher? Que direito esse ser pensa que tem para denegrir ou achar que podem possuir o corpo e a mente de uma mulher? Será que ele pensa na mãe dele, que poderia estar naquela situação?

Segundo dados do IBGE, a cada ano, cerca de 1,2 milhão de mulheres sofrem agressões no Brasil. Pelas estimativas do Ipea, destas, 500 mil são estupradas, sendo que somente 52 mil ocorrências chegam ao conhecimento da polícia. Cerqueira lembrou que até 1995, mesmo depois da Constituição Cidadã, a mulher não poderia prestar queixa na delegacia contra o companheiro, e até 2009 o estupro era um crime contra os costumes – não contra a dignidade e liberdade sexual. Esta, segundo ele, é uma história trágica, que começou a ser superada com a Lei Maria da Penha. (trecho retirado de dados do IPEA)

Mesmo sendo um tema complexo e bastante delicado, o debate não pode ser deixado de lado e muito menos minimizado. O assédio gera traumas que marcam a vida das mulheres. Viviana Santiago, especialista de gênero da ONG de direitos infantis Plan International Brasil, acredita que é necessário mudanças na educação. ” É necessário incluir a cultura de gênero nas escolas, para reduzir casos de abusos e estupros com meninas e mulheres. Não começamos a ser violentadas na vida adulta. Por isso precisamos ensinar cultura de gênero desde cedo. A sociedade precisa repensar a maneira como educa meninos e meninas porque a, partir daí, construiremos esses ‘novos homens’.”

Não se pode deixar que o assédio continue rotulado como “natural” na sociedade brasileira.

Anúncios

Um comentário sobre “Cultura do machismo ainda impera no Brasil

  1. Mainha

    O principal foco que seu blog passou a chamar a minha atenção é que agora você tem em mente uma diversidade de assuntos. Isso é muitooo positivo. O presente tema foi muito bem abordado. Parabéns.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s